segunda-feira, 5 de abril de 2010

AMOR A QUALQUER PREÇO




3° romance escrito por Diedra Roiz, foi postado pela primeira vez de Fevereiro a Maio de 2008.
Revisto, atualizado e ampliado pela 1a vez de Setembro de 2009 a Fevereiro de 2010, e pela 2a vez de Março de 2010 a Maio de 2011.





AMOR A QUALQUER PREÇO
Em breve em versão impressa!
Revisado, revisto, com ilustrações e cenas inéditas!



Para saber mais acesse:
EM BREVE





PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE!  
Este texto está registrado:
Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional (Registro nº 446866 em 02/12/2008).
ISBN 978-85-910000-2-9
Todos os direitos reservados. 
Proibida a reprodução, adaptação, disponibilização para download, impressão, cópia ou postagem deste texto em qualquer local, no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora por escrito. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98



Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?



SINOPSE:
No enevoado mundo de Marcela, Vivi surge como a luz que ilumina, mas não antes de ofuscar. 



MÚSICA QUE INSPIROU A HISTÓRIA:




OBSERVAÇÃO SUPER IMPORTANTE:  
Este é um "romance musical", recomenda-se ouvir as músicas indicadas para melhor aproveitamento da leitura dos capítulos.




 

Capítulo 1 - Ojos Así



Ojos Así


Link:






Era uma noite como outra qualquer. Uma festa do pessoal da faculdade como outra qualquer.

Era o que Vivi repetia incessantemente para si mesma. Esforço absolutamente inútil de negar o nervosismo absurdo. Friozinho na barriga, sensação de algo no ar que a fazia tremer a mão, tornando quase impossível passar o delineador nos olhos. Coisa que normalmente fazia com uma facilidade e precisão incríveis.

Parou um pouco a maquiagem, passou as mãos nos cabelos, com um suspiro profundo.

Era a primeira vez que ia sair solteira, depois de terminar um namoro de quatro anos com o Edu. Sim, definitivamente, só podia ser... Nervosismo de reestréia! 

Riu, se olhando no espelho.

Mas no fundo sabia que não era só isso.

Tinha terminado com ele sem motivo aparente. Apenas uma inquietação fora do normal. Uma sensação de que precisava, merecia e teria mais. Muito mais da vida e do mundo.

Só então prestou atenção na música que tocava no MP4 amplificado... E sorriu.

“Ojos Así” (Shakira). Parecendo anunciar a mudança que lentamente se estabelecia. E que tinha começado da maneira mais repentina.

Três meses atrás...


Era o primeiro dia de aula do 3º período. Vivi estava sentada na frente, quase colada no quadro negro, entre Carlinha e Lu, suas amigas inseparáveis, quando de repente...

Ela... Entrou na sala.

A pele muito branca contrastando com os cabelos negros com mechas - Azuis! - muito lisos cortados num chanel repicado, de franja arredondada e comprida, deixando a nuca à mostra.  Óculos escuros, calça jeans rasgada. Ao invés de livros, um capacete de moto na mão. E um andar que era tão...

Tudo na aparência da aluna nova era selvagem, rebelde, quase agressivo. E apesar de parecer engolir qual um buraco negro tudo aquilo que Vivi tinha como certo, seguro e conhecido, foi incontrolável, irresistível, impossível não acompanhá-la com os olhos.

Claro que Marcela – depois acabou sabendo o nome dela – se tornou o assunto preferido da turma. As informações chegavam aos ouvidos de Vivi de forma involuntária: Marcela tinha destrancado a matrícula depois de três semestres afastada, era a quarta geração de uma família conhecida de advogados, juízes e desembargadores, e estava na faculdade de direito obrigada. Vinte e dois anos, guitarrista e vocalista de uma banda de rock, só se vestia de preto. Fumava maconha, tinha piercing na orelha e na língua, um tribal tatuado nas costas em cima das nádegas, era absurdamente estilosa e gostava de... Mulheres.

Especulações ou não, despertaram em Vivi um interesse quase insuportável. Que a fazia se retirar da cantina, da biblioteca, de uma rodinha de amigos, todo lugar aonde Marcela chegasse.

Evitar qualquer tipo de contato não era algo consciente. Muito pelo contrário. Cada vez que fugia, Vivi se recriminava. Mas não conseguia superar a estranha inquietação que a presença dela causava. Muito menos a reação instintiva, irreprimível, imediata. Como se soubesse, intuísse, pressentisse na outra um perigo incalculável.

De vez em quando não conseguia se conter – "Pura curiosidade!" - Era o que dizia para si mesma, sem, no entanto, realmente se enganar – e olhava disfarçadamente para Marcela, sempre sentada no fundo da sala de óculos escuros, fones no ouvido, a cabeça encostada na parede e os pés em cima de uma cadeira na frente dela, numa postura evidente de “Cagando e andando”.
Até o dia fatídico na xerox.

Tinha acabado de pegar umas 30 folhas que o professor de direito civil tinha pedido para lerem. Virou equilibrando o fichário, os códigos, as xerox, quando levou um encontrão que fez tudo o que segurava ir direto para o chão. Já ia soltar um:

- Não olha por onde anda não?

Quando percebeu que tinha esbarrado... Nela.

Ao contrário de tudo o que Vivi esperava, Marcela foi completa e absolutamente simpática:

- A culpa foi minha. Desculpa. Deixa eu te ajudar...

Vivi ficou parada, ou melhor, paralisada sob o efeito da voz hipnotizante, que pareceu entrar dentro dela. Marcela entregou o fichário e os livros para Vivi, e se abaixou para catar os papéis espalhados pelo chão.

Tirando Vivi do estado de torpor em que estava para se abaixar na frente dela. Tão perto que começou a reparar em pequenos detalhes: Marcela usava uma pulseira de couro no pulso direito, e um anel prateado grosso no dedão esquerdo. Que ficavam perfeitos nela, como todo o resto.

O último pensamento fez Vivi ficar sem ar. Ainda não estava preparada para confessar, nem para si mesma, o real motivo de Marcela a deixar naquele estado.

Levantaram-se ao mesmo tempo. Ficaram paradas frente a frente. Marcela tirou os óculos, e Vivi viu os olhos dela pela primeira vez.

Doces, muito doces, mas sem nada de calmos.   Olhos que pareciam um mar negro tão profundo que se perder neles se tornava fácil.

- Desculpe mesmo...

Em resposta, Vivi apenas gaguejou, sem conseguir desviar o olhar da negritude magnética:

- Tu... Tudo bem...

Louca para ir embora e esquecer aquela sensação estranha, desconhecida, surreal. Mas Marcela estendeu a mão, com um sorriso enorme e... Abusivamente sedutor:

- Prazer. Marcela.

Hesitante, Vivi apertou a mão que a outra oferecia, sentindo todos os pelos do corpo se arrepiarem.  Livrou-se com pressa da mão abrasiva, e se virou para se afastar o mais rápido possível.

Mas Marcela a impediu:

- Seu nome... Você não me disse.

Meio de costas, sem olhar para Marcela de novo, torcendo para que a voz não tremesse e falhasse tanto quanto todo o resto, Vivi respondeu:

- Viviane.

 Fugiu. Assustada, confusa e trêmula. Sentindo que tinha acabado de viver um daqueles momentos inexplicavelmente marcantes.

***

Pela milionésima vez, Vivi se olhou no espelho. Tinha se arrumado toda, caprichando no visual. Sabia que naturalmente já era bonita, mas...

Naquela noite, os cabelos ruivos compridos, os olhos de esmeralda, as pequenas sardas na pele sempre bronzeada, o corpo esculpido por anos de dança pareciam... Insuficientes para conseguir aquilo que... Sequer sabia direito o que queria...

Insegura, nervosa, ansiosa e... Sentindo-se apenas razoável.

Perfeito! Tudo o que precisava, realmente...

A repetição automática da música a fez ouvir mais uma vez:

“Y conocí tus ojos negros (E conheci teus olhos negros)
Y ahora si que no (e agora sei que não)
Puedo vivir sin ellos yo (posso viver sem eles)
Le pido al cielo solo un deseo (peço aos céus só um desejo)
Que en tus ojos yo pueda vivir" (Que em teus olhos eu possa viver)

Desligou o som. Olhou-se no espelho uma última vez. Ainda achando mil defeitos. Deu de ombros, e saiu assim mesmo.

Na verdade, estava perfeita. Só que não enxergava. Nem poderia, com o turbilhão que levava por dentro.

***

Quando chegou, o apartamento já estava muito cheio, e a fumaça dos cigarros não deixava ver direito as pessoas bebendo e dançando lá dentro.

Cumprimentou alguns colegas de turma na porta, os olhos rapidamente percorrendo a sala e encontrando o que procuravam: a dona da festa.

Marcela já vinha em direção à ela, com aquele sorriso enorme que sempre dava de graça quando se encontravam.

- Vivi! Que bom que você veio!

Dois beijinhos e Marcela voltou a desaparecer no meio da sala lotada de gente.

Vivi ficou um pouco desapontada. Decepcionada até.

Tanto que se assustou.

Recapitulou para si mesma: não gostava de mulher. Apenas... Apreciava a companhia de Marcela!

Depois do episódio da xerox, tinham se tornado muito amigas. Batia com ela papos enormes, absolutamente interessantes, inteligentes, divertidos.

Se bem que... Sempre se arrepiava quando no meio da conversa, a mão de Marcela pousava displicentemente na coxa dela.

Nada demais, nenhuma intenção escusa por detrás daquele contato. Marcela era o tipo de pessoa que não conseguia conversar sem tocar. Para total desespero de Vivi, porque... A cada passada de mão na perna, sentia um calor insano se espalhar pelo corpo inteiro. E o pior: era evidente que Marcela não sentia o mesmo.

Perdida nesses pensamentos, nem percebeu Carlinha chegando com duas latas de cerveja na mão.

- Oi Vivi! Amiga, isso aqui tá uma loucura! Chegou agora?

- É.

- Nossa, você caprichou, hein! Tá vestida para matar!

***

Amiga de Vivi desde os 10 anos de idade, provavelmente Carlinha era a pessoa que mais a conhecia.

- Todo mundo já ta sabendo que você e o Edu terminaram.

- E como será que a notícia se espalhou tão rápido? Eu só contei pra você!

- É, eu dei uma ajudinha...

Carlinha riu, sabendo que a amiga ia gostar. Colocou uma das latinhas na mão de Vivi e a arrastou pelo meio da sala.

Vivi não soube como, no meio da confusão, Carlinha conseguiu um sofá vazio onde se sentaram. E é lógico, um sofá com uma vista privilegiada da sala.

Assim que se acomodaram, Carlinha começou:

- E aí, amiga, viu alguma coisa interessante?

- Não e nem tô a fim disso.

- Até parece, né? Produzida desse jeito? Com certeza já tem até um alvo.

Os olhos de Vivi percorreram a sala, e encontraram Marcela parada, fumando um cigarro. Será que era o efeito da cerveja, ou a forma dela segurar o cigarro e tragar era absurdamente provocante?

Vivi ficou com uma cara meio abobada. Marcela percebeu, porque riu antes de sair do alcance da vista dela.

- Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas vou dar uma voltinha.

E dizendo isso, Carlinha levantou e desapareceu no meio das pessoas. Foi quando, do nada, Marcela surgiu. E se sentou... Do lado de Vivi.

- Quer? – Marcela perguntou, estendendo uma latinha de cerveja.

- Obrigada... – Vivi respondeu pegando a cerveja e pensando, meio sem saber exatamente o sentido: - Claro que sim.

- Qual é a graça?

Muito sem graça ao perceber que estava rindo sozinha, a única coisa que Vivi conseguiu articular foi:

- Nada.

- Na verdade eu vim aqui com uma missão. - Marcela a olhou tão profundamente ao falar, que por um momento Vivi prendeu a respiração.

- Ãh? Como assim? – apesar de se sentir meio idiota, Vivi não teve como não perguntar.

Marcela sussurrou:

- Digamos que tem uma pessoa a fim de você.

E Vivi se perguntou se um coração poderia bater mais rápido do que o dela naquele momento sem maiores complicações.



ATENÇÃO: Este texto está registrado:
Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional (Registro nº 446866 em 02/12/2008).
ISBN 978-85-910000-2-9


Proibida a reprodução, adaptação, disponibilização para download, impressão, cópia ou postagem deste texto em qualquer local, no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora por escrito. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98



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Capítulo 2 - Nothing Else Matters



Nothing Else Matters 


Link:








Mil coisas passaram pela cabeça de Vivi. Milhares de pensamentos. Um deles infinitamente melhor e mais assustador do que todos os outros, porque... Não era para Vivi estar gostando tanto da idéia: "Será que Marcela estava a fim dela?"

A ruiva ficou quieta, sem saber o que falar. Evitou olhar para Marcela, com medo que pudesse, nessa simples troca de olhar, se entregar.

Virou a latinha de cerveja de uma só vez. Marcela a olhou estranhando, e depois riu, divertida.

Vivi teve a impressão que Marcela ia falar alguma coisa, mas Carlinha apareceu dançando, e dizendo:

- Toma isso, tá divino!

Depois de colocar um copo cheio de Caipirinha na mão de Vivi, a amiga sumiu novamente.

Vivi provou a bebida. Estava fortíssima, desceu queimando pela garganta, o que foi estranhamente reconfortante.

- Quer provar? - perguntou pra Marcela, que continuava a olhar para ela num misto de diversão e  surpresa.

- Não, obrigada. Eu não sabia que você bebia, Vivi. Aliás, acho melhor você não misturar.

- E por que não?

A frase soou um pouco agressiva, e Vivi aproveitou para dar um bom gole, em desafio. Não sabia porque, mas estava irritada com Marcela.

- Tudo bem, não está mais aqui quem falou.

Com a resposta de Marcela, a exasperação de Vivi só aumentou. Deu mais três goles, fingindo que olhava para as pessoas da festa, mas no fundo o que queria saber mesmo era se Marcela estava olhando para ela.

A essa altura, já estava ficando um pouco tonta. Sempre tinha sido fraca para bebida, bastavam dois chopes para ficar colocada. E aquela Caipirinha estava um perigo!

Com certeza foi por isso - só por isso - que olhou bem para Marcela, e soltou a pergunta que não queria calar:

- Quem tá a fim de mim?

Marcela demorou a responder? Para Vivi pareceu que ficou uma eternidade olhando firme, ou melhor... Tentando fixar o olhar em Marcela antes da resposta:

- O Guilherme.

 Vivi deixou escapar : 

- Guilherme? Quem diabos é Guilherme?

- Aquele ali. - Marcela respondeu apontando para um cara bem bonito por sinal, que acenou antes de se aproximar sorrindo.

Marcela se levantou bem na hora em que o tal carinha chegou e parou na frente de Vivi.

- Guilherme, Vivi. Vivi, Guilherme – apresentou e saiu fora rapidamente.

O carinha, coitado, ficou sorrindo um sorriso bobo, parecia – e provavelmente já estava - meio alto.

Vivi passou a mão nos cabelos, jogando-os para trás, tentando ganhar tempo. Com muita vontade de matar Marcela.

Foi quando viu o par de olhos negros do outro lado da sala observando-a atentamente. “Ah, é assim? Então tudo bem!”

Movida pela raiva, deu o maior beijo na boca do tal do Guilherme, que retribuiu puxando Vivi pra sentar no colo dele no sofá.

Imediatamente se arrependeu. Achando a coisa toda fora do controle demais. Não tinha nada a ver ficar sentada no colo de um cara que nem conhecia só porque... Por que mesmo?

Não tinha mesmo nenhuma razão ou sentido palpáveis.

Sem se importar com o que o tal Guilherme ia pensar, Vivi levantou quase de um salto e saiu de perto dele o mais rápido possível.

- Caramba, Vivi, o que foi que deu em você? - disse uma Carlinha toda suada de tanto dançar - O cara era muito gato!

Mas a única preocupação da ruiva era:

- Viu a Marcela?

Ao constatar que ela não estava mais em nenhum lugar da sala...

- Ih, a Marcela foi pro quarto dela, disse que tava com dor de cabeça. Olha só: me pediram pra levar esse brownie pra ela, você leva?

Sem esperar a resposta, Carlinha depositou o brownie na mão de Vivi e se afastou dançando.
Vivi não hesitou. Nem por um momento. Entrou no corredor escuro com o coração batendo forte no peito.

***

A porta do quarto estava entreaberta. Pela fresta da porta, Vivi observou Marcela deitada na cama. Os olhos fechados, a luz fraca do abajur dando ao rosto dela um toque quase mágico de tão belo...

Ficou ali parada, estática, olhando boquiaberta. Ao som da música que preencheu o espaço entre elas. “Nothing Else Matters” (Metallica)

Como se sentisse a presença de Vivi, Marcela abriu os olhos. E quando a viu, abriu o mais lindo de todos os sorrisos...

- Entra. Encosta a porta.

Vivi fez mais do que ela pediu. Não só fechou como trancou a porta. O coração não batia, martelava...

Sentou na beira da cama e Marcela pousou a mão na coxa dela com uma intimidade tão natural quanto foi para Vivi dar o brownie para Marcela na boca.

Quando terminou de comer, Marcela limpou os dedos de Vivi lambendo-os de uma forma absolutamente sensual. Vivi estremeceu, e Marcela percebeu, porque a olhou diferente. Profundamente.

Quando os olhos se encontraram, os de Vivi continham um apelo mudo, indiscutível. Os de Marcela continuavam indecifráveis, como tudo nela. Unindo-os, apenas um entendimento mudo. Reconheciam-se.

Então, Marcela a puxou com inegável gentileza, e quando as bocas se tocaram pela primeira vez, para Vivi foi como se o mundo mudasse... Com aquele beijo diferente de todos os outros...

E aquele primeiro beijo foi, sem dúvida, o momento de prazer mais intenso de toda a vida de Vivi. Uma vontade que chegava a doer, e que ela nem sabia que existia...

A textura da pele de Marcela, o cheiro, o piercing na língua... Nunca tinha sentido nada parecido...

Devagar, com uma lentidão intensa e deliberada que deixou Vivi ofegante e trêmula, Marcela a despiu, peça por peça.

As mãos e os lábios experientes percorrendo o corpo inteiro da ruiva de uma forma quase angustiante.

Vivi, por outro lado, arrancou as roupas de Marcela o mais rápido que pôde, ansiosa demais para ser delicada como ela.

Tocando-a, beijando-a com uma voracidade puramente instintiva. Com falta de ar, quase sufocando de tanto desejo...

- Calma... - Marcela sussurrou no ouvido de Vivi antes de beijá-la novamente.

Mas Vivi era pura pressa. Com os braços ao redor do pescoço de Marcela, gemendo alto sem perceber...

Suspirando, implorando, oferecendo... Contaminando Marcela com a urgência que tomava conta dela...

Apossou-se de Vivi com total consentimento. Saboreando, incitando, surpreendendo... A delicadeza torturante da boca nos seios, a maciez das mãos femininas desvendando intensamente, acariciando o corpo de Vivi inteiro...

Abrindo, mostrando que entre elas nada era segredo... Tocando entre as coxas, enfiando os dedos como se revelasse a alma profundamente...
  
Quase desfaleceu quando a boca de Marcela desceu e mergulhou, até Vivi se contorcer desnorteada e gritar o nome dela no gozo que veio intenso...      

E então, Marcela já estava em cima de Vivi, esfregando pele na pele, sentindo e causando matizes de prazer idênticas...
Mas Vivi precisava de mais para ficar satisfeita. Empurrou-a, trocando de posição. E então pode procurar, encontrar, trilhar seu caminho no corpo maravilhoso de Marcela.

Com um prazer profundo, latente, Vivi saboreou a pele quase vampiresca de tão branca... Suave, macia e quente... Tão quente que chegava a queimar... Deliciada em fazê-la gemer e se contorcer, explorou aquele calor por inteiro... A boca, a língua, os dedos parecendo pouco para o tamanho do próprio desejo... Parou no interior das coxas. Experimentando a textura, o cheiro...

As mãos de Marcela a puxaram, enfiaram-se nos cabelos ruivos, mas Vivi ainda continuou apenas beijando, lambendo, provocando... Sentindo-a por um bom tempo.

E então, quando finalmente encostou a boca e provou o gosto dela, fechou os olhos e se deixou levar pela deliciosa sensação de tontura, loucura, desterro...

Como um redemoinho arrebatador, extraordinário, delirante... Sugada por um magnífico buraco negro... Mergulhada num fascínio deslumbrante, que a levou a ver, tocar e experimentar estrelas...

Suspirando e gemendo, se entregou ao abismo de sensações surpreendentes deliberadamente sem medo.



Capítulo 3 - Pequenas Poções de Ilusão



Pequenas Poções de Ilusão 


Link:



À princípio, Marcela Albuquerque de Moraes era o que normalmente se chama de rebelde sem causa. Os pais preferiam dizer ovelha negra.

E Marcela adorava... Orgulhava-se mesmo... De ambas as definições.

Filha única de uma família de classe média alta, acostumada a ter tudo o que quisesse, e a fazer o que bem entendesse, se recusava propositalmente a fazer parte do “discreto charme da burguesia”.

Não era à toa que era fã incondicional de Cazuza.

De tanto esfregar na cara dos pais uma diversidade de ficantes, amantes e namoradas, tinha conquistado o direito de ter seu próprio apartamento. E uma moto, um carro, uma mesada bem abonada e cartões de crédito em troca de cursar direito na UERJ.

A vida de Marcela seria perfeita se... Não fosse o fato de estar louca e completamente apaixonada por Gisele.

A loira monumental de 38 anos, incrivelmente sexy que só a fazia sofrer, porque... Além de ser casada com uma mulher que a sustentava, Gisele estava longe de corresponder.

Usava Marcela descarada e declaradamente. Jogava na cara dela que só a queria para fazer sexo. Maltratava-a, a mandava embora, desprezava terrivelmente, e depois a chamava de volta.

E quanto mais Gisele pisava, mais Marcela obedecia correndo.

Claro que estar apaixonada não impedia que Marcela se divertisse. Dormia com outras mulheres, apesar de sempre ficar com certa ressaca moral depois.

Afinal de contas, não tinha espaço para mais ninguém no coração. Gisele era dona dele inteiro...

Por isso mesmo Marcela ficou deitada na cama ao lado de Vivi, achando que tinha acabado de fazer uma burrada gigantesca.

Verdade que a primeira vez que tinha visto Vivi, na xerox da faculdade, tinha sido simpática apenas por causa da aparência dela. Tinha achado Vivi linda. Muito gata mesmo.

O fato da ruiva ser hetero não era problema. Marcela estava cansada de servir de experiência, de matar a curiosidade sexual de várias heteros.

Mas era diferente com Vivi. Ela era especial. Eram amigas. E não queria perder a amizade dela.

Tinha percebido que Vivi estava diferente no momento em que a ruiva chegou na festa. Porém, havia pensado que era porque tinha acabado de terminar com o namorado.

Guilherme tinha implorado para Marcela interceder por ele. E na hora em que estavam conversando, viu Vivi olhando com uma cara abobada na direção dele. Por isso e só por isso os apresentou, saiu fora e ficou observando se a própria atuação como cupido tinha dado certo.

Foi quando o celular tocou. Era Gisele. Dizendo que não ia aparecer e cancelando o encontro que tinham marcado no dia seguinte. Porque ia viajar com a esposa.

Marcela ficou louca de raiva, com ciúmes, possessa... Para ela acabou ali a festa. Foi para o quarto e se deitou.

E logo depois, Vivi apareceu.

A presença de Vivi, a forma como ela tinha trancado a porta, dado o bolo para ela na boca e a olhado com os maravilhosos olhos verdes cintilando depois... Tinha mexido com Marcela.

Mais do que mexido. O desespero com que Vivi se entregou, e a urgência com que a devorou depois... Deixaram Marcela fora de controle. Não que depois de fumar um baseado inteiro sozinha, e frente a uma garota bonita se oferecendo fosse difícil perdê-lo...

A verdadeira surpresa tinha sido a atuação da ruiva. Apesar de não ter experiência com mulheres, sem dúvida Vivi tinha um talento natural para a coisa...

Marcela afastou o último pensamento, se sentindo culpada de novo. Nada justificava ter perdido completamente a cabeça daquele jeito. Não sabia nem como ia conseguiu olhar para Vivi de novo...

***

Vivi se atirou na cama ao lado de Marcela. A cabeça rodando... Não por causa da bebida. Um sentimento inexplicável a confundia.

Marcela estava perceptivelmente muda, evitando fitá-la. Passou a mão pelos cabelos negros, tirando-os do rosto, a pulseira de couro um elemento a mais do charme dela...
 

"Como se precisasse..." – Vivi não teve como evitar o pensamento, nem a conclusão que veio: "Como se não fosse irresistível de qualquer jeito..."

Sem ter coragem de encarar Vivi, Marcela mudou o CD apontando o controle remoto sem olhar para o som. De Metallica para Barão Vermelho...

A voz inconfundível de Cazuza entrou rasgando:

“Eu tô perdido
Sem pai nem mãe
Bem na porta da tua casa...”

(Maior Abandonado – Frejat / Cazuza)

Antes de Marcela finalmente falar, ainda com os olhos negros grudados no teto:

- Olha só... Vivi, eu... Não quero que você fique chateada nem que mude comigo por causa do que aconteceu... Eu... Nós somos amigas, e eu não... Eu não devia ter... Me desculpa... Eu... Eu sinto muito... Mesmo.

Não acreditou no que estava ouvindo. Marcela estava realmente se desculpando depois de ter dado a Vivi a experiência mais incrível que já tinha tido?

As emoções rodopiaram, se misturaram à letra que insistentemente repetia:

“Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam...”


Marcela não entendeu nada. Até se assustou com a reação dela: Vivi caiu na gargalhada. Depois respondeu:

- Assim parece que você me atacou, ou algo parecido. Não foi bem o que aconteceu. - "Quem dera... "- foi o que Vivi pensou, mas obviamente, não falou. - vendo a cara perplexa de Marcela, continuou: - Tá tudo bem, Marcela... Fica fria.

Mas Marcela continuava preocupada com ela:

- Mas você... Você nunca tinha...

“Mentiras sinceras me interessam
Me interessam...”


- Nada demais. Pra tudo tem uma primeira vez, né? - Vivi respondeu rapidamente. Querendo fazer parecer que tinha sido uma coisa sem importância. E rezando para que Marcela mudasse logo de assunto.

Em vão:

- E aí? O que você achou?

Essa era a Marcela que Vivi conhecia. Nada convencional. Sem noção, a maioria das pessoas diria.

- Tá querendo elogios?

Esse foi o único jeito que Vivi encontrou para devolver a pergunta absolutamente descabida.

Marcela ficou totalmente sem jeito. E entendeu que havia passado dos limites.
Por instantes apenas. Porque logo percebeu que Vivi estava de novo rindo.

Pegou um dos travesseiros e atirou na cara da ruiva... Que jogou o travesseiro de volta nela...

Marcela então a segurou pelos pulsos, prendendo os braços de Vivi contra a cama, acima da cabeça dela, imobilizando-a...

“Teu corpo com amor ou não
Raspas e restos me interessam...”


O riso morrendo na garganta das duas quando os olhares finalmente se encontraram, revelando o quanto a brincadeira havia voltado a ficar séria.

Os olhos de esmeralda de Vivi hipnotizando Marcela com seu brilho intenso... As bocas se aproximando quase que naturalmente...

Foi quando o celular de Marcela tocou. Quebrando o clima por completo.
Mais ainda quando Marcela atendeu e viu que era... Gisele.

- Oi Gi...

Mesmo que Marcela não tivesse dito o nome, pelo tom de voz totalmente diferente, Vivi já sabia quem era.

Marcela esqueceu completamente de Vivi e de todo o resto. Continuou:

- Fala, meu amor... Agora? Tá, tudo bem... Tô lá em 15 minutos... Beijo nessa sua boca gostosa... Tchau...

Quando olhou novamente, Vivi já estava completamente vestida:

- Vou indo.

Marcela pediu:

- Espera só um minutinho...

“Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam”


Vestiu-se correndo, desligou o som, e acompanhou Vivi até a sala, que agora já estava bem mais vazia. Vivi ainda tentou encontrar Carlinha, mas nem sinal dela. Marcela gritou:

- O último a sair bate a porta!

E saiu quase correndo atrás de Gisele. Com Vivi caminhando silenciosamente atrás dela.  


Capítulo 4 - Quero que vá tudo pro Inferno



Quero que vá tudo pro Inferno 


Link:


Quando Vivi chegou em casa os pais já estavam dormindo. A porta do quarto de Carol estava aberta. Ou seja, a irmã mais velha ainda não havia chegado.

Entrou no próprio quarto. Deitou na cama de sapatos mesmo. Levou a mão ao rosto, respirou fundo... Ainda tinha nos dedos o cheiro de Marcela... Um aroma que a fez sentir uma coisa... Emoção diferente de tudo que já havia sentido... Luzes multicoloridas transbordando por dentro...

Sentou na cama de repente. Certa de que só podia estar enlouquecendo. Nunca tinha gostado de mulher. Não fazia o menor sentido ficar ali se derretendo... Ainda por cima com o odor de...

Voltou a aproximar o nariz dos dedos... Esqueceu tudo o que estava pensando, um sorriso bobo se formando nos lábios de forma involuntária novamente...

De alguma forma estranha, inexplicável, indefinível, o que tinha acontecido entre ela e Marcela havia mudado a vida de Vivi para sempre, porque... Mais do que tudo, contra qualquer tipo de razão ou cabimento, queria repetir o que tinha sentido naquele quarto com ela...

Num impulso, pegou o telefone e ligou para Carlinha:

- Caramba, Vivi! Onde você se meteu? Te procurei horrores pela festa inteira...

Vivi suspirou fundo. Sempre tinha contado tudo para Carlinha. Dessa vez não ia ser diferente:

- Ai, amiga... Você não imagina o que aconteceu...

Carlinha respondeu naquele tom de confidente eterna:

- Fala, amiga... Que foi?

Vivi tomou coragem, e soltou de uma só vez:

- A Marcela e eu... Nós... Transamos...

Carlinha engasgou do outro lado:

- O quê?

- Isso mesmo que você ouviu.

Depois de segundos de silêncio, Carlinha bombardeou Vivi de perguntas:

- Como assim? Do nada? Como foi? Foi bom? Quer dizer... Como é? Ai, amiga, que doideira! Quero saber tudinho... Detalhadamente!

Vivi riu da curiosidade da amiga. E contou tudo, exatamente como tinha acontecido.

Carlinha apenas ouviu, soltando de vez em quando uma ou outra exclamação surpresa. Quando Vivi terminou, a amiga deu sua sentença:

- E eu pensava que só os homens eram escrotos...

Imediatamente, sem pensar duas vezes, Vivi defendeu Marcela:

- Também não é assim, né?

Carlinha insistiu:

- Putz, Vivi... Ela não foi exatamente sensível, né?

Mas Vivi não concordou:

- Ela foi sincera...

Carlinha fez um silêncio significativo. A preocupação dela era aparente quando perguntou:

- E você?

Uma pergunta com milhares de interpretações possíveis. Nenhuma que pudesse deixar a voz de Vivi menos trêmula:

- Eu o quê?

Carlinha não fez rodeios:

- Quero saber o que você sente pela Marcela. Parece bem caidinha por ela...

Vivi negou. Riu. Disse que era absurdo, que tinha sido só sexo, uma experiência, e nunca passaria daquilo. Afirmou que Carlinha estava delirando... Com tanta convicção que a convenceu.

Mas não conseguiu conter a vontade insana que sentiu. Mais uma vez, aproximou a mão do nariz, e voltou a aspirar com prazer o cheiro que Marcela tinha deixado em seus dedos...

***

Enquanto isso, Marcela estacionava a moto em Ipanema, na calçada em frente ao Empório.
Esperou mais de meia hora até Gisele finalmente aparecer. Ela nem desceu do carro. Mandou Marcela entrar e a levou para o motel mais próximo.

Três horas fazendo sexo de todas as formas e modos possíveis, e então Gisele se livrou de Marcela novamente, depois de deixá-la pagar a conta sozinha.

Nem a levou de volta. Largou Marcela na porta do motel mesmo.

Marcela quase gritou de raiva. Teve que pegar um táxi para chegar onde estava a moto:

- Rua Maria Quitéria, por favor.

Com as lágrimas escorrendo rosto abaixo dolorosamente.

***

A amizade de Vivi e Marcela não terminou por causa do que tinha acontecido. Pelo contrário. Vivi ficou muito mais próxima dela. Isso deixou Marcela aliviada e feliz.

Vivi, por outro lado, passou a se sentir incomodada quando Marcela falava de Gisele. E a esperar ansiosamente que Marcela colocasse a mão na coxa dela enquanto conversavam.

Mas isso ela escondeu até de Carlinha. Como um insano, profano, inconfessável segredo. Que extravasava noite após noite antes de dormir, deitada sozinha na cama, de olhos fechados... Fingindo, imaginando, desejando que fosse a mão de Marcela a tocando debaixo das cobertas...

***

Numa 6ª feira, Vivi foi assistir a um show da banda de Marcela pela primeira vez. Na Casa Rosa, em Laranjeiras.

Acabou indo sozinha porque... Carlinha não quis ir com ela, preferiu sair com um carinha que estava a fim.

Quando Vivi chegou, Marcela estava numa rodinha de amigos, alguns da turma delas da faculdade, e a recebeu com um enorme sorriso:

- Vivi! Se você não viesse eu nem sei...

Pura verdade. Estava realmente contente com a presença dela.

Parecendo esquecer todos os outros, Marcela puxou Vivi para um canto. Tirou um vidrinho do bolso. Abriu, derramou um pozinho branco na parte de cima da mão e ofereceu:

- Special K. Quer?

Vivi sabia muito por alto o que era Special K. Um tipo de tranquilizante de animais que as pessoas cheiravam em festas, boates e raves... Fosse o que fosse, não importava. Vivi não usava drogas de nenhum tipo.

- Não, obrigada.

- Ok.

Marcela aproximou a mão do nariz, e cheirou o pó rapidamente. Depois fungou um pouco e esfregou o nariz como se estivesse coçando.

- Vamos. Ainda tenho que mudar de roupa antes de começar.

Vivi detestou o que viu. Desconhecia esse lado de Marcela, mas não disse nada. Guardou a desaprovação, ou melhor: a engoliu.

Voltou para o grupo de conhecidos enquanto Marcela subia no palco e desaparecia lá em cima.

***

Quando o show começou, Vivi quase engasgou com a cerveja que estava bebendo. Ficou absolutamente sem ar com o que viu...

Marcela usando... Uma calça de couro preta justíssima, e botas do exército. No lugar da pulseira de couro, uma munhequeira preta. Como os outros integrantes, vestia a camiseta preta com o nome da banda escrito em letras azul turquesa: “The Mitidos”.

Só que ela tinha arrancado a gola, as mangas e a parte de baixo da camiseta, deixando os braços, o colo e a barriga todos de fora.

Para alívio de Vivi, por baixo do que tinha sobrado da camiseta, Marcela estava usando um top.

Como descrever o que Vivi sentiu quando a ouviu cantar pela primeira vez? Já sabia que Marcela tinha uma voz linda, quando ela falava era perceptível. Mas era mais do que isso...
A voz dela continha um emoção que dominava, às vezes doce e suave, às vezes cortante, rascante, desesperada... Deliciosamente entorpecente...

E a forma como Marcela abraçava e dedilhava a guitarra também era... Inacreditavelmente envolvente... Desconcertante... Hipnótica...

Vivi demorou alguns minutos para se recompor e... Perceber, registrar e somar uma informação a mais na coleção de detalhes que saboreava incessantemente: Marcela era canhota... Tocava a guitarra – azul, como as mechas do cabelo dela - do lado oposto do que todos os outros faziam.

Mais uma pitada estranhamente sensual e atraente nos inúmeros e maravilhosos mistérios dos quais Marcela era feita...

Nervosa com todas as sensações e vontades inconfessáveis que sentia, Vivi se aproximou do palco, e gritou impulsivamente:

- Gostosa!

***

Marcela até viu Vivi se aproximar e colocar as mãos em concha na boca para gritar. Esperava que ela gritasse qualquer coisa... Tudo, menos aquilo.

Sem saber o quanto de verdade tinha na aparente brincadeira dela, retribui com um sorriso imenso. Que Vivi devolveu quase a cegando com o vibrante resplandecer dos olhos verdes.

Quase, porque não teve como deixar de ver a loira alta, maravilhosa, inconfundível, que entrou e se postou grudada no palco bem na frente dela.

Vivi acompanhou o olhar de Marcela, querendo morrer quando descobriu o motivo dela estar babando e se derretendo.

Principalmente porque, tinha que dar o braço a torcer, a loira era um mulherão escândalo, um monumento mesmo...

Todos pareciam ficar hipnotizados por ela. Menos Vivi, que só olhava para Marcela...

***

A primeira música acabou, e as pessoas aplaudiram. Marcela começou a tocar sozinha. Sem sair do estilo bem rock and roll da banda. Os outros se entreolharam, perdidos em princípio, porque não era a música que eles haviam ensaiado, mas Marcela precisava aproveitar o momento. Era perfeito.

Começou a cantar, e eles a seguiram:

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem
e eu estou a lhe esperar
só tenho você... ah... no meu pensamento
e a sua ausência é todo o meu tormento
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”


Cantou e tocou o primeiro refrão de uma forma provocante, absolutamente sedutora. Arrancando suspiros da platéia.

Deixando Vivi cada vez mais louca por ela, apesar de Marcela cantar o tempo todo com os olhos fixos em Gisele. A música era para ela. E Gisele parecia estar adorando. Isso empolgou Marcela.

O segundo refrão foi ainda mais passional, quase selvagem de tão intenso:

“De que vale a minha boa vida de playboy
se entro no meu carro e a solidão me dói
onde quer que eu ande tudo é tão triste
não me interessa o que de mais existe
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”


Então, Marcela deu um suspiro, se jogou de joelhos na beira do palco, para ficar cara a cara com Gisele, e a beijou na boca apaixonadamente.

Arrancando gritos e assobios da platéia, enquanto o outro guitarrista fazia o início do solo sozinho.

O beijo cinematográfico fez Vivi sentir um nó por dentro. Mas estranhamente, não conseguiu parar de olhar para delas.

Gisele se afastou, e Marcela se levantou num salto. Terminou o solo junto com o outro cara. Gritou:

- Te amo, Gi!

E voltou a cantar de uma forma absolutamente visceral:

“Não suporto mais
você longe de mim
quero até morrer
do que viver assim
só quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno!
Eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno!
e que tudo mais vá pro inferno!
e que tudo mais vá pro inferno!”

(“Quero que vá tudo pro inferno” – Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

Terminaram a música com as palmas lá em cima. Começaram a terceira música. Mas Gisele tinha sumido.

Logo depois Marcela a viu, com uma mulher que tinha acabado de chegar, e que Marcela já conhecia, porque... Era ninguém menos do que... A mulher de Gi.

Vivi percebeu que do nada, Marcela começou a cantar mecanicamente. A voz fria, sem nenhuma energia. E depois com raiva, absolutamente agressiva.

Imediatamente seguiu o olhar dela e descobriu o motivo: a loira estava aos beijos com outra.
Disfarçadamente, Vivi se aproximou das duas, a tempo de ouvir a outra dizer:

- Amorzinho, não sei por que você insistiu em vir aqui. Só tem criança e o som é horrível...

A loira deu de ombros e respondeu:

- Tem razão, amor. Vamos embora daqui.

Antes das duas saírem abraçadinhas.

Vivi olhou para o palco. Marcela parecia transtornada. Talvez as outras pessoas não percebessem. Mas Vivi sim.

Ver Marcela daquele jeito fez o coração de Vivi doer. Sem questionar por que, grudou no palco e gritou:

- Linda!

Marcela olhou para ela e deu um sorrisinho. Triste. Mas um sorriso. Que incentivou Vivi a continuar:

- Maravilhosa! Absoluta! Apertadinha!

Fazendo Marcela cair na risada. E depois presentear Vivi com um novo sorriso... Dessa vez absolutamente deslumbrante, esplendoroso, lindo... Que fez Vivi estremecer ao perceber que... Não se contentaria só com aquilo.


 

Capítulo 5 - Protège Moi




Protège Moi


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Quando o show terminou, Vivi foi procurar Marcela. Ela estava num canto com o pessoal da banda, fumando um baseado. Ofereceu para Vivi, que recusou, agradeceu e disse:

- Marcela, tô indo...

Sem se questionar porque com Vivi a displicência habitual parecia entrar em modo off, Marcela perguntou, verdadeiramente preocupada:

- Vai como? Tá de carro, ruiva?

Os pais de Vivi tinham dado um carro para ela e a irmã dividirem. Por isso, naquele dia estava sem carro.

- Não. Mas tá tranquilo, eu pego um táxi.

Marcela contestou prontamente:

- Nada disso! Você vai comigo! Espera só um pouquinho...

Como recusar?

Só que depois de fumar, Marcela cheirou mais um pouquinho do tal Special K, bebeu uma cervejinha... Começou a ficar cada vez mais alterada. E a parecer que não ia embora tão cedo...

Por isso Vivi disse:

- Marcela, eu tenho mesmo que ir. Falei pra minha mãe que não ia chegar tarde.

Marcela deu uma última tragada no cigarro que estava fumando, o jogou no chão e falou:

- Ok. Então vamos.

Passou o braço nos ombros de Vivi e a guiou para onde tinha estacionado. Vivi não conseguiu deixar de estremecer com o contato. Ficou toda arrepiada. Marcela percebeu, mas felizmente, interpretou de outra forma, porque perguntou:

- Tá com frio?

Vivi mentiu, respondeu que sim. E foi muito pior, porque Marcela começou a esfregar as mãos nos ombros e nos braços de Vivi. Fazendo-a esquentar, mas de uma maneira bem diferente da que pretendia...

Então chegaram no carro. Marcela abriu a porta para a ruiva, totalmente sem noção das sensações que as mãos tinham despertado.

Vivi entrou e colocou o cinto. Marcela sentou, ou melhor, se jogou no banco ao lado. Rodou a chave, passou a marcha e saiu cantando pneu, em alta velocidade. Fazendo Vivi se perguntar se era uma boa idéia deixá-la dirigir.

Não deu tempo de dizer nada. Foram paradas por um guarda. Não tinham nem como discutir. O estado de Marcela era evidentemente lamentável.

O policial pediu que Marcela descesse do carro, mas ela disse, sorrindo calmamente:

- Não tem como a gente resolver de outro jeito, seu guarda?

A postura do policial mudou completamente, como se Marcela tivesse dito as palavras mágicas. Marcela continuou, fazendo uma cara suplicante:

- Eu sei que tô errada...  É a primeira vez que faço isso... E a última! Juro! Por favor... Alivia pra mim...

Enquanto falava puxou uma nota de 50 reais da carteira e sutilmente deixou na mão do guarda, que disse:

- Tudo bem. Dessa vez passa. Mas é melhor deixar a sua amiga dirigir.

Marcela concordou, obediente e solícita. Vivi desceu, deu a volta e quando chegou do outro lado, Marcela já estava no banco do carona.

Depois que saiu com o carro, Vivi desabafou, completamente indignada:

- Que absurdo, Marcela! Você... Você subornou o policial!

Marcela a olhou sem entender nada. Como se o que tivesse feito fosse a coisa mais natural do mundo:

- Ué, que que tem?

Vivi continuou:

- Acha isso certo?

- Ele só queria dinheiro. - Marcela riu alto, antes de completar: - Além disso... O certo seria o que? Deixar ele me prender, por acaso?

- Como assim, te prender?

- Por causa disso, ora...

Vivi quase teve uma síncope quando Marcela abriu o porta luvas e pegou um saco plástico cheio de maconha, um pedaço de papel de seda, e começou a apertar um baseado.

- Marcela, você é maluca?

Marcela voltou a rir. Sem parar de continuar enrolando o troço.

Vivi se dividiu entre a revolta por Marcela agir de forma absurda, e a reação puramente física que sentiu quando ela lambeu sensualmente a seda para fechar o baseado...

- Fica tranquila. Meu pai me dá grana suficiente pra comprar a polícia do Rio de Janeiro inteira.

Foi aí que Vivi não aguentou:

- Não acredito! Logo você, que adora bater no peito dizendo que não se rende ao sistema... E tem a coragem de ficar compactuando com coisas como essa?

Marcela torceu o nariz:

- Ai, que papo careta...

A frase teve o poder de tirar Vivi do sério. Quase gritou:

- Nunca pensei que você fosse tão...

Mas se segurou na hora, evitando falar o resto. Marcela a olhou com ar de desafio debochado, do tipo “não aceito ser criticada”:

- Tão o que? Continua!

Vivi não se lembrava de já ter sentido uma fúria tão grande. Disparou:

- Alienada! Inconsequente! Filhinha de papai! E quer saber? Joga essa porcaria fora!

Marcela ficou muda de surpresa, porque... Vivi falou sem se importar se ela ia gostar ou não. Sem medo de contrariar. De um jeito que ninguém fazia com Marcela há muito tempo.

E para completar, arrancou o saco plástico da mão dela, deixando o vento levar todo o conteúdo antes de devolver o saco vazio para Marcela. A mesma coisa com o baseado, que destroçou sem deixar um pedacinho de seda para contar a história.

Marcela ficou um tempo observando a ruiva que dirigia ainda bufando de irritação.

- Vivi?

De nada adiantou a vozinha doce que fez. Foi fuzilada pelos olhos verdes, que tomados pela raiva pareciam... Ainda mais lindos do que o normal...

Falou de um jeito que sabia que tornaria impossível para Vivi continuar chateada com ela:

- Eu não fiz por mal... Ah... Você não vai deixar de ser minha amiga por causa disso, vai?

Vivi continuou olhando para frente. Mas Marcela percebeu que os olhos voltaram ao normal quando ela respondeu:

- Não, Marcela. Sou sua amiga de verdade. Exatamente por isso nunca vou passar a mão na sua cabeça quando você fizer merda!

Marcela sorriu. Achando Vivi maravilhosamente incrível e linda...

Mas não durou muito tempo. Logo em seguida sentiu o estômago revirando, uma coisa subindo... Marcela abriu o vidro elétrico correndo:

- Tô enjoada...

E vomitou do lado de fora da janela.

***

Marcela ficou de olhos fechados, sem se mover, em silêncio absoluto, até chegarem no prédio dela no Leblon. A sensação de tonteira e mal estar não era novidade para ela...

Vivi estacionou na garagem, ajudou Marcela a sair do carro porque... Ela estava trocando as pernas... E a acompanhou até a porta do apartamento. Ia se despedir, mas Marcela pediu:

- Vivi... Você pode dormir aqui?

Não teve como não concordar. Não ia ficar tranqüila se deixasse Marcela daquele jeito sozinha.

Assim que a ruiva disse “sim”, Marcela melhorou muito:

- Vou colocar uma música. O que você quer ouvir?

Antes que Vivi pudesse responder, desapareceu no corredor, deixando-a na sala sozinha.

Vivi ainda tentou protestar:

- Não tá meio tarde pra...

Mas a música alta vinda do quarto a impediu de ser ouvida. “Protège Moi” (Placebo).

Arrepiou inteira quando Marcela soprou... A boca sugestivamente próxima do ouvido dela:

- Gosta?

Sem conseguir entender, muito menos disfarçar direito, Vivi gaguejou:

- O... O quê? Do quê?

Marcela riu, e respondeu:

- Da música...

Completamente sem graça, Vivi desviou os olhos e passou a mão nos cabelos. Marcela completou:

- Não é meu tipo de som. Ganhei esse CD. Eles são emo demais pro meu gosto, mas... Bom, achei que combinava com você...

Sem entender direito se aquilo era um elogio, ou uma crítica, Vivi disse a única coisa que lhe ocorreu:

- Preciso avisar que não vou dormir em casa.

Depois de indicar o telefone com um gesto, Marcela voltou a sumir.

Vivi ligou avisando que ia dormir na casa de uma amiga. Depois de algumas perguntas básicas, a mãe concordou, despreocupada. Tinham uma relação de confiança aberta e clara, que Vivi nunca tinha quebrado.

Quando desligou, procurou e encontrou Marcela na cozinha, parada com a porta da geladeira aberta, olhando lá para dentro e rindo, como se estivesse vendo alguma coisa muito divertida.

- Que você tá fazendo aí?

Marcela se assustou, e derrubou uma caixa de leite aberta, sujando todo o chão. Vivi olhou em volta, procurando um pano ou papel toalha para limpar a sujeira. Como se adivinhasse o pensamento dela, Marcela disse:

- Deixa. Amanhã a empregada limpa.

Pegou um pedaço de pizza gelada, passou doce de leite nela, e começou a comer com desespero.

- Larica. - O olhar perplexo de Vivi a fez explicar, falando com a boca cheia. Depois de devorar com gosto a mistura repulsiva, pegou uma garrafa de Coca Cola, bebeu no gargalo mesmo, e foi para o quarto esquecendo a geladeira aberta.

Vivi sacudiu a cabeça, reprovando. Pegou a caixa de leite vazia no chão, colocou na pia. Fechou a geladeira, com cuidado para não pisar na poça de leite, e só então foi atrás dela.

Entrou no quarto e levou um susto, porque... Marcela tinha arrancado a roupa, jogado as cobertas no chão e se atirado na cama inteiramente nua.

Não soube dizer quanto tempo ficou admirando a beleza de Marcela deitada de bruços na cama, abraçando o travesseiro. Com um sentimento intenso, o coração ecoando como se fogo líquido corresse nas veias...

Tentou se controlar. Pensou em cachorrinhos mortos, baratas, lesmas... Qualquer coisa capaz de neutralizar o desejo... Sem resultado nenhum.

O tribal parecia tatuado na mente de Vivi ao invés de nas costas de Marcela. Absurdamente atraente, delicioso, sensual...  Como tudo nela.

Com muito esforço, desviou os olhos. Tirou os brincos de argola, as sandálias e o vestido. Encontrou uma camiseta jogada numa cadeira - do Pink Floyd com a gola arrancada. Preta, como todas as roupas de Marcela - e vestiu.

Procurou, mas não encontrou o controle para desligar o som, que na repetição automática, ainda repetia:

“Protect me from what I want (Proteja-me do que eu quero)
Protect me from what I want (Proteja-me do que eu quero)
Protect me from what I want (Proteja-me do que eu quero)
Protège Moi...(Proteja-me)
Protège Moi...”(Proteja-me)


Deitou ao lado de Marcela na cama de casal completamente tensa, tentando manter-se o mais distante possível, com medo do que inevitavelmente aconteceria se as peles encostassem nem que fosse um milímetro...

Mas assim que Marcela sentiu o peso no colchão, virou-se para Vivi, e a puxou pela cintura, resmungando sonolenta:

- Vem... Faz o que você quiser comigo...

Pega de surpresa, incapaz de continuar controlando ou negando o que realmente desejava, Vivi colou os lábios nos dela, aceitando o convite.

Marcela correspondeu, suspirando deliciosamente. Invadindo a boca de Vivi com a língua, e depois descendo os lábios pelo pescoço dela, provocando gemidos.

Livrou Vivi das roupas com urgência, as mãos famintas... A boca subindo ao encontro da orelha de Vivi, mordiscando o lóbulo, causando arrepios... Fazendo-a se entregar, ceder, render-se por inteiro...

Até Marcela sussurrar baixinho:

- Te amo, Gi...





Capítulo 6 - All I Need



All I Need



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Vivi gelou. Sentiu todos os músculos do corpo ficarem rígidos. Mas o pior foi a dor que sentiu, como se alguma coisa implodisse dentro do peito.

As carícias apaixonadas de Marcela continuaram, mas tinham perdido todo o encanto, porque não eram para ela.

Tentou se livrar das mãos de Marcela... Inutilmente. Ela resmungou e lutou para poder continuar tocando em Vivi. Depois rolou, deixando-a presa debaixo dela. Encostou a boca na de Vivi, enroscou as línguas... O piercing deslizando, a dureza do metal frio um estimulante erótico a mais...

No mesmo instante, o corpo de Vivi parou de obedecer. Amoleceu, derreteu, se ofereceu...

Marcela começou a se mover, as coxas das duas encaixadas deliciosamente... Vivi perdeu o ar, o chão, toda e qualquer noção além do incontrolável vulcão que explodiu no contato eletrostático das peles...

Inevitável... Incontrolável... Irresistível...

Gemeu baixinho quando Marcela escorregou as pernas entre as dela e os sexos se encostaram. Causando um prazer inédito, insuportável, incoerente, de respirar o que sentia por ela umidamente...

Apaixonada, ardente, exigente...

Era a febre de Marcela em cima dela. E contagiou Vivi completamente. Fazendo-a se deixar levar como se não houvesse nada além daquele momento.

Passou a mão nas costas de Marcela, apertando-a ainda mais... Adorando receber a respiração dela ardendo descompassada no pescoço, entre gemidos sussurrados de forma absolutamente inebriante e incoerente...

Marcela sentiu o corpo estremecer, abriu os olhos por um instante e, mesmo sem entender por que, as ondas de prazer aumentaram imensamente quando se deparou com... O verde profundo dos olhos que a acompanharam num gozo embriagante e intenso.

***

Depois, Vivi ficou ali deitada, o corpo de Marcela largado, adormecido, pesando deliciosamente em cima do dela.

Sentindo-se culpada, angustiada, envergonhada, perdida... Por não ter conseguido resistir... Por ter transado com Marcela mesmo sabendo que ela pensava que estava com a tal Gisele.

Mas por um breve momento, os olhos tinham se encontrado, e Vivi tinha tido quase certeza de que Marcela sabia que era ela.

Sacudiu a cabeça em negação, afirmando mentalmente que estava só tentando se enganar. Querendo achar uma desculpa, algum tipo de alívio, e mais do que tudo, coragem para encarar Marcela no dia seguinte.

Marcela se mexeu sensualmente, ainda dormindo. Apertou Vivi com mais força, suspirou junto ao ouvido dela... Despertando novamente a sensação traiçoeira que fazia a ruiva se arrepiar inteira.

Vivi passou a mão no rosto, nos cabelos... Sem saber o que fazer. A não ser... Prosseguir a luta mental contra si mesma.

Tudo bem, realmente sentia uma atração incontrolável por Marcela. Mas isso não queria dizer que fosse algo mais do que físico. Não podia estar apaixonada por ela, podia?

Já não tinha mais como afirmar que não gostava de mulheres. Na verdade não sabia.

Nunca havia olhado para outras, Marcela era a primeira e única, só tinha olhos para ela...

Mas apaixonada? Impossível!

Detestava o jeito anarquista e caótico de Marcela, a forma como não se importava com nada nem ninguém. Com exceção da tal Gisele. Por quem parecia nutrir um sentimento masoquista nada saudável também.

Estar apaixonada por ela não fazia o menor sentido.

Marcela se moveu novamente, descendo um pouco o corpo e encostando a cabeça no ombro de Vivi, e interrompendo a continuação do monólogo interior da ruiva por por um breve, quase imperceptível momento.

O melhor que tinha a fazer era tirar Marcela de cima dela, se vestir e fingir que nada havia acontecido.

Mas antes, precisava aproveitar, só um pouquinho...

Acariciou os cabelos negros. Marcela sorriu. Vivi não resistiu: beijou-a no rosto, na testa, aspirou o cheiro dela... Encostou a boca nos lábios deliciosos, que imediatamente corresponderam...

Foi tão bom o que aquele beijo roubado a fez sentir, que desistiu completamente da idéia de afastá-la.

Ao invés disso, envolveu Marcela num abraço apertado, e suspirando de prazer, acabou adormecendo também, incapaz de resistir à próprios desejos e vontades.

***


No dia seguinte, Marcela se deixou ficar deitada, semi-adormecida, preguiçosamente de olhos fechados. Recusando-se a acordar e voltar à realidade, porque... Estava com um sentimento maravilhoso, algo que não sentia há muito tempo.

Tinha tido um sonho delicioso com Gisele. Onde haviam feito amor de uma forma totalmente diferente. Depois Gisele a tinha abraçado e beijado de um jeito que... Marcela gostaria que fosse o de sempre...

O mais engraçado, estranho mesmo, é que no sonho tinha visto... Dois olhos muito verdes... Muito parecidos com os olhos de...

Foi quando sentiu um movimento atrás dela. Abriu os olhos num susto, olhou para trás e gelou... Quando viu Vivi deitada de bruços, nua ao lado dela.

Levou as mãos à cabeça, com um profundo desespero. Não sabia muito bem o que tinha acontecido, o que tinha feito... Esperava que nada que deixasse Vivi ofendida, chateada nem magoada com ela...

A única coisa que lembrava era de uma sensação de prazer misteriosamente intensa e... Verde...

Levou as mãos à cabeça de novo, pensando:

- Puta Merda!

Mas apesar do arrependimento, Marcela era apenas humana... Inevitável que aproveitasse para deixar os olhos percorrerem Vivi inteira.

Muito, mas muito linda mesmo... Mais do que isso. No rosto uma expressão meiga, quase ingênua... Que em contraste com as formas nada inocentes do corpo bem feito faziam uma combinação irresistivelmente sedutora e atraente.

Um brilho verde tirou Marcela daqueles pensamentos... Vivi tinha acordado e a olhava de um jeito preocupado, quase tenso.

Ia abrir a boca para falar, quando a voz da mãe soou no corredor, dizendo:

- Marcela! Preciso conversar com você!

E então a mãe já estava dentro do quarto.

O primeiro impulso de Marcela foi se colocar na frente de Vivi, tentando esconder a nudez da ruiva. Felizmente, a mãe tapou os olhos e saiu assim que percebeu que Marcela tinha companhia.

Marcela olhou para Vivi, que estava - mais do que vermelha - roxa de vergonha. Ficou sinceramente sem graça por causa dela:

- Ai, Vivi... Nossa, desculpa... Mil desculpas mesmo... Vou ver o que minha mãe quer... Me espera aqui, por favor? Desculpa... Só um momento...

Vestiu uma calça jeans larga e a camisa do Pink Floyd que Vivi tinha usado na véspera, e saiu, fechando a porta atrás dela.

Vivi sentou na cama, o rosto ainda queimando, completamente sem graça. Vestiu a calcinha e o vestido, colocou as sandálias e os brincos, e - que jeito? - ficou sentada na beira da cama esperando Marcela.

***

- Antes da senhorita falar qualquer coisa, a porta do seu quarto estava aberta.

Foi a primeira coisa que a mãe disse, já sabendo que Marcela ia reclamar. A segunda foi:

- Filha, até quando você pretende viver assim?

O que Marcela não pretendia era ouvir mais um dos intermináveis discursos sobre amadurecer e ter responsabilidade, por isso respondeu:

- Não acredito que você entrou no meu quarto a essa hora da manhã pra me dizer isso...

- São duas horas da tarde, Marcela!

Marcela deu de ombros:

- Minha banda tocou ontem. Deixei recado na sua secretária, mas pra variar, você não deve ter tido tempo...

Fazer a mãe se sentir culpada por trabalhar demais era uma estratégia que Marcela usava desde os sete anos de idade. Sempre dava certo:

- Não fala assim, filha... Fiz compras pra você. Daqui a pouco o supermercado entrega. Também trouxe a faxineira, pra tentar dar um jeito nessa bagunça.

- Tudo bem. Mas fala que no meu quarto é só fazer a cama e varrer o chão. Se mexer nas minhas coisas mato ela!

Deu as costas para a mãe e voltou para o quarto com a indiferença displicente de sempre.

***

Vivi desligou o celular, depois de avisar a mãe que já estava indo, e olhou mais uma vez para a porta, nervosa. Esperava que Marcela não quisesse conversar sobre o que tinha acontecido na véspera.

Com certeza ela não lembrava direito. E Vivi não queria ter que contar, muito menos entrar em detalhes, porque... Só de lembrar se arrepiava inteira.

Marcela estava olhando para ela quando acordou. Mas tinha sido tão rápido que nem tinha dado tempo de ver a expressão dos olhos dela.

Vivi olhou em volta. No geral, o quarto de Marcela era... Uma apologia ao caos. O pesadelo de qualquer mãe. Parecia que um furacão tinha passado por ali e deixado tudo revirado, de pernas para o ar.

Roupas e sapatos espalhados pelo chão, em cima da cadeira, da mesa... O armário inteiro devia estar vazio.

Uma tv de plasma na parede na frente da cama, um home theater com caixas de som enormes, com milhares de CDs e DVDs de música jogados por cima e dos lados, empilhados tão tortos, que Vivi teve certeza de que poderiam cair a qualquer momento.

Na escrivaninha um laptop aberto, papéis amassados, canetas espalhadas, bonequinhos dos “Beatles” e do Submarino Amarelo, um microfone antigo - do tipo que se usava nos tempos do rádio - num pequeno pedestal, e dois cinzeiros cheios de restos de cigarro e cinzas.

E prateleiras, muitas prateleiras, uma verdadeira biblioteca de códigos e livros de direito que pela poeira acumulada, pareciam nunca ter sido lidos.

Impossível saber a cor das paredes, porque eram totalmente revestidas por pôsteres de shows e bandas, colados quase que um por cima do outro, com alguns símbolos da anarquia pichados com “spray” preto, numa verdadeira poluição visual que era... A cara de Marcela.

Ao lado da cama duas “cases” - com o violão e a guitarra dela - e um amplificador com um monte de fios embolados caindo por todos os lados.

A porta se abriu, e Marcela entrou novamente no quarto...

***

Marcela voltou para o quarto torcendo para que Vivi não comentasse a noite passada. Preferia não lembrar, com certeza.

Porque nunca, em todas as muitas vezes que havia ficado mal a ponto de esquecer, tinha feito algo que prestasse.

Quando entrou Vivi estava toda vestida, sentada na beira da cama, olhando para o lado, pensativa.

Levantou os olhos de esmeralda quase que imediatamente. Como se esperasse que Marcela falasse algo. Então Marcela se desculpou de novo pela mãe ter entrado de repente. Evitando mencionar que elas estavam nuas na cama, é claro. Vivi se levantou, parecendo aliviada, e disse:

- Preciso ir.

E Marcela respondeu imediatamente:

- Eu levo você.

- Não precisa.

Mas Marcela já tinha pegado a chave do carro, colocado os óculos escuros e calçado um par de Havaianas pretas:

- Imagina se vou te deixar ir sozinha! Vem.

Vivi a seguiu pelo corredor, torcendo para não dar de cara com a mãe de Marcela. Para alívio de Vivi, a sala estava vazia.

Ouviu vozes vindo da cozinha, mas Marcela passou direto. Já estavam na frente do elevador, quando Vivi perguntou:

- Não vai avisar sua mãe?

Marcela deu de ombros, fazendo uma cara do tipo: “pra quê?”.

Para Vivi era impensável sair de casa sem beijar a mãe. Fez uma expressão de desaprovação tão grande que Marcela acabou voltando e gritando da porta:

- Mãe! Vou levar minha amiga e já volto!

E em se tratando de Marcela, que não dava satisfação nem quando morava com os pais, isso era absolutamente surpreendente.

***

Quando chegaram na garagem, Marcela viu na hora que o carro estava bem estacionado demais para ter sido dirigido por ela. Mas não fez comentários. Foi abrir a porta para Vivi e viu que a lateral inteira do carona (incluindo a maçaneta) estava toda vomitada. Impediu que Vivi chegasse perto, dizendo:

- Melhor você entrar pelo outro lado.

Vivi obedeceu, sem falar nada. Sabendo muito bem a razão da porta estar... Interditada.

As duas se mantiveram caladas, até Marcela perguntar:

- Se importa se eu lavar o carro antes de deixar você?

Para Vivi não era sacrifício nenhum ficar um pouco mais de tempo com ela. Mas respondeu de forma corriqueira, para Marcela não perceber:

- Tudo bem.

***

Marcela parou no primeiro posto. Ao som the “All I Need”(Radiohead). Por sorte não tinha fila, e entraram no lava a jato direto.

Assim que a máquina começou a passar pelo carro, jogando água com sabão, Marcela fechou os olhos e apertou as laterais da testa com os dedos. Vivi perguntou:

- Tá com dor de cabeça?

- Um pouco.

Os esfregões passaram no capô e nas laterais do carro, cobrindo todas as janelas de espuma. Vivi disse de um jeito muito, mas muito carinhoso mesmo:

- Me dá sua mão.

Marcela olhou surpresa para aqueles olhos verdes lindos. Sorrindo, e não parecendo ter nenhum tipo de segundas intenções.

Estendeu a mão, e Vivi “pinçou” a pele que liga o polegar e o indicador com o polegar e o indicador dela, explicando:

- É um ponto de do-in. Dizem que pressionar aqui faz passar a dor.

Pressionou sem fazer força, sabendo que só de apertar levemente o tal ponto já ia doer um pouco. Marcela soltou um “ai!”, fez uma careta, e implicou:

- Passa, com certeza! Da cabeça pra mão...

As duas riram juntas. Gostosamente.

Os jatos d’água tiraram toda a espuma. O carro ficou totalmente lavado e pronto. Mas elas não estavam prestando a menor atenção, porque...

O riso se transformou. Sem que nenhuma das duas pudesse definir em que.

Marcela tirou os óculos escuros. Olhando fundo nos olhos verdes, que cintilaram como duas estrelas.

Vivi se permitiu mergulhar na intensidade indomável daqueles olhos negros. O coração acelerando incrivelmente no peito.

O olhar de Marcela se tornou exatamente igual ao da véspera. Naquele momento em que os olhos tinham se encontrado, se tocado e pulsado num incrível turbilhão de prazer.

Marcela continuou olhando para Vivi, tomada por um estranho sentimento de “dejá vu”, que não conseguia entender. E de repente os olhos verdes se tornaram... Incandescentes.

Fazendo Marcela sentir um desejo incoerente de se deixar ofuscar pelas duas fogueiras de esmeralda eternamente...

Mas um carro buzinou atrás, tirando-a do estado de quase hipnose em que se encontrava. Marcela soltou a mão das de Vivi, desviou os olhos e sacudiu a cabeça, como que afastando um encantamento. Olhou para frente, rodou a chave, e saiu com o carro.

Completamente consciente que o brilho verde acompanhava cada movimento.

***

Um desconfortável silêncio se estabeleceu durante o resto do caminho. Vivi observando Marcela atentamente. Ela parecia estranhamente tensa. Vivi se perguntou o porquê, sem conseguir chegar a uma conclusão concreta.

Assim que parou em frente ao prédio dela, Vivi agradeceu e desceu do carro apressada. Despedindo-se com um “tchau” ao invés dos dois beijinhos de sempre.

Sentindo um inexplicável aperto no peito, Marcela a chamou sem querer:

- Vivi!

A ruiva se virou, com um brilho doce e fascinante nos olhos:

- Quê?

Marcela não percebeu, mas ficou parada de boca aberta, os olhos presos nos dela. Vivi sorriu, aumentando a intensidade do brilho verde. Marcela sorriu de volta, inconscientemente. E só então conseguiu responder:

- Nada não. Esqueci.

- Tá. Se lembrar me liga.

Virou e começou a se afastar do carro. Apenas para Marcela a chamar novamente:

- Vivi...

Quando a ruiva se virou, Marcela disse a primeira coisa que lhe veio à mente:

- O trabalho de constitucional...

Porque na verdade tinha mais uma vez cedido à vontade insana que sentiu de não deixá-la ir embora.

- Que que tem?

Foi a resposta de Vivi, já com a mão na porta.

- Quando a gente vai fazer?

Vivi não estava entendendo nada, mas nada mesmo. Parecia que Marcela estava inventando conversa para...

Para quê? Não, bobagem... Com certeza ela tinha esquecido o que tinham combinado mesmo. Como aliás, fazia com todo o resto.

O tom de voz saiu muito mais irritado do que Vivi gostaria:

- Segunda, depois da aula. A gente vem direto da faculdade e almoça aqui em casa, ok?

Da mesma forma impulsiva, virou sem nem esperar a resposta:

- Ok.

Marcela ficou ali parada, perplexa. Olhando Vivi entrar no prédio. E só saiu com o carro depois que a porta se fechou atrás dela.

***

Assim que chegou em casa ligou para Gisele. A loira atendeu como sempre:

- O que você quer?

- Te ver. Tô morrendo de saudade de você...

- Já? A gente se viu ontem, Marcela.

Marcela lembrou de Gisele aos beijos com a esposa. Suspirou, com a voz suplicante ao dizer:

- Por favor, Gi... Ontem você me deixou lá sozinha...

Gisele riu, debochada:

- Eu estava com a minha mulher. Queria que largasse ela pra ficar com você?

Marcela insistiu com uma voz muito doce e derretida:

- Ai, Gi... Você me tortura, sabia? Preciso te ver, amorzinho... Hoje ainda... Por favor... Não consigo ficar sem minha loira gostosa... Por favor, Gi...

A voz de Gisele mudou. Tornou-se provocante e sexy:

- Não sei se tô a fim, gatinha.

Gatinha. Era assim que Gisele chamava Marcela quando estava de bom humor ou querendo alguma coisa. Isso era um ótimo sinal. Queria dizer que ela ia ceder. Marcela completou:

- Vou te fazer gozar muito, amor...

Com um riso absolutamente cafajeste, Gisele concordou.

***

Marcela se jogou no colchão ao lado de Gisele. Totalmente suada e esgotada depois de uma maratona de seis horas de sexo selvagem, incontrolável, e...

Sem nenhum afeto. Pelo menos por parte de Gisele.

Passou a mão nos cabelos negros e olhou para a loira pelo espelho no teto. A nudez esplendorosa à mostra, o corpo relaxado, um sorriso safado nos lábios. Parecia estar completamente saciada.

Marcela, por outro lado, continuava incansável, faminta, impaciente, ávida... Como se buscasse algo e não encontrasse.

Deitou novamente em cima de Gisele. Beijou-a na boca, desceu os lábios pelo pescoço, pelos seios... A loira gemeu:

- Ai, gatinha... Você hoje tá insaciável!

Marcela começou a mover o corpo, se esfregando nela de forma quase brutal. Com raiva daquele desejo estranho e interminável... Gozou rápido, de um jeito tenso, rude, violento.

Depois, se deixou cair em cima de Gisele, o rosto enterrado nos cabelos amarelos, tremendo porque... Não estava de forma alguma satisfeita.

***

Na segunda feira depois da aula, estavam Lu, Carlinha e Vivi no carro dela. Marcela seguia na frente de moto. De vez em quando emparelhava com elas, sempre do lado da janela de Vivi... E ficava sorrindo para ela.

Sentada no banco de trás, Lu não podia estar com a cara mais feia. Aproveitou um momento em que Marcela não estava perto para desabafar:

- Não entendi, Vivi. Nada a ver chamar essa... Esquisita pra fazer trabalho com a gente.

Vivi imediatamente a cortou:

- A Marcela é minha amiga.

Carlinha pôs lenha na fogueira:

- Lu, se eu fosse você não falava mal da Marcela perto da Vivi.

Indignada demais para se controlar, Lu continuou:

- Vão acabar dizendo que nós somos iguais a ela. Como, aliás, já tão falando de você, Vivi.

Aí sim, Vivi ficou possessa:

- Como assim, falando o quê?

- Você sabe muito bem.

Lu falou um pouco sem jeito, como quem sabe que não está sendo politicamente correta, mas não consegue evitar pensar daquele jeito. Vivi não aliviou:

- Não, não sei. Tão falando que eu sou o quê?

Lu falou baixinho, quase sussurrando:

- Lésbica...

Vivi deu uma gargalhada, antes de dizer:

- E se eu for? E se eu te disser que já transei com mulher e gostei?

Carlinha coçou a cabeça, fez cara de quem sabe que o desastre é iminente... E tentou salvar intercedendo:

- Vamos mudar de assunto, gente?

Inutilmente. Porque Lu soltou uma exclamação de nojo, e completou:

- Te conheço, Vivi. Sei muito bem que você não é sapatão!

Aquilo despertou em Vivi uma raiva cega. Incoerente. Que a fez estacionar o carro do nada.

Marcela percebeu e parou a moto um pouco mais na frente, sem entender o que estava acontecendo.

Ainda não tinham chegado na casa de Vivi.
Estavam numa ruazinha do lado do viaduto que se pega para entrar na rua Pinheiro Machado quando se vem da rua das Laranjeiras...

- Você acha que me conhece!

Foi a frase de Vivi antes de descer do carro e caminhar na direção de Marcela, os olhos soltando faíscas verdes.

Marcela mal teve tempo de desmontar da moto e tirar o capacete, preocupada:

- Que foi, Vivi? Algum problema?

A resposta de Vivi foi passar os braços ao redor do pescoço de Marcela, a olhar fundo nos olhos, e colar a boca na dela num longo, profundo e apaixonado beijo.


 

Capítulo 7 - When the Stars go Blue



BUTSUDAN - Oratório Budista

When the Stars go Blue



Nam Myoho Renge Kyo:



Marcela arregalou os olhos, surpresa... E então correspondeu, abraçando Vivi pela cintura e colando o corpo no dela. Sentiu Vivi suspirar e se aconchegar, a mão a acariciando no pescoço de uma forma tão suave e carinhosa que fez Marcela estremecer.

Vivi entreabriu os lábios e na mesma hora a língua de Marcela procurou a dela, o piercing causando o efeito delicioso de sempre.

As mãos de Marcela percorreram as costas de Vivi, a pressionando mais contra o corpo que parecia queimar como o dela.

Foi quando Vivi se lembrou que estavam numa rua que não era muito movimentada, mas que também não era completamente deserta. Que Lu e Carlinha deveriam estar no mínimo chocadas dentro do carro, e que não sabia como ia explicar aquilo para Marcela.

Por isso e só por isso interrompeu o beijo e se afastou. Desejando continuar nos braços de Marcela.

A respiração de Marcela estava tão alterada quanto a dela. Nenhuma das duas disse nada. Ficaram apenas se olhando profundamente. O negro dos olhos parecendo mais claro. Prisioneiro do atordoante brilho verde.

Carlinha buzinou, gritando:

- Vivi! Detesto interromper, mas... Vamos, né?

Vivi recuou três passos, andando de costas, sem desviar os olhos dos de Marcela. E então se virou e voltou para o carro.

Lu estava muda. Paralisada. Vivi também estava muito calada. Mas Carlinha, para variar, não podia deixar de dizer:

- É, Lu... Parece que você não conhece a Vivi tão bem quanto pensava, né?

E riu às gargalhadas. Vivi saiu com o carro. Passou por Marcela que continuava lá parada, olhando para ela estática.

Confusa, perdida, desorientada...

Ainda sob o efeito ardente e macio dos lábios dela. Era como Marcela estava se sentindo quando o carro de Vivi passou por ela.

Vivi a tinha beijado de um jeito que fez Marcela desejar se render, conquistar, pertencer, ganhar e se perder naquele incêndio que Vivi provocava.

Coisa totalmente incoerente, levando em conta que Marcela era louca e absolutamente apaixonada por Gisele. E que Vivi era - sim, ela era, porque o que havia acontecido entre elas não queria dizer nada – hetero.

Só podia estar carente. Muito carente, aliás.

Pegou o capacete que tinha deixado na garupa, colocou na cabeça, subiu na moto, e seguiu atrás do carro guiado pela dona dos olhos verdes que a confundiam completamente.

***

Vivi não falou mais nada até chegarem no Leme e entrarem na garagem do prédio dela.

Na verdade, Carlinha ficou falando sozinha, soltando várias tiradas engraçadas que aos poucos foram melhorando o clima tenso que havia se estabelecido dentro do carro.

Marcela estacionou a moto num canto, onde Vivi tinha indicado. E ficou esperando por elas perto do elevador. Subiram com Carlinha tagarelando sem parar, daquele jeito dela super divertido, que não permitia que ninguém ficasse sem rir.

A primeira coisa que Marcela reparou quando entraram na sala, foi num oratório imenso, com duas velas, dois vasos com plantas verdes, um sino, e alguns potes que não soube identificar.

Vivi explicou, ao ver o olhar interrogativo de Marcela:

- Sou budista.

Mais do que isso, Vivi era “fukushi”, ou seja, tinha nascido numa família budista. Marcela continuou prestando atenção:

- O que nós vamos fazer agora se chama “Daimoku Sansho”, que é recitar o NAM MYOHO RENGE KYO três vezes.

Marcela ficou muito curiosa:

- Recitar o quê?

- NAM MYOHO RENGE KYO!

Repetiram Lu e Carlinha juntinhas, mais do que acostumadas. Afinal de contas, eram amigas de Vivi há muito tempo. E apesar de não serem budistas, faziam Daimoku Sansho em sinal de respeito, sempre que entravam e saiam da casa da ruiva.

Vivi entregou um cartãozinho para Marcela, onde tinha o mantra escrito:

- Mas você não precisa fazer se não quiser...

Marcela sorriu. E disse:

- Não, eu quero. Só queria entender pra que.

O interesse de Marcela fez os olhinhos verdes brilharem de forma irresistível:

- É pra cumprimentar o Gohonzon.

Marcela estava um pouco tonta com o monte de nomes japoneses. Vivi percebeu:

- É um pergaminho, vou abrir pra você ver.

E dizendo isso, abriu as portas do oratório, e uma luz acendeu lá dentro automaticamente. Marcela pôde ver um pergaminho cheio de escritos que obviamente não conseguiu ler, porque eram todos ideogramas.

Isso a deixou um pouco confusa, porque sempre achou que budismo tinha a ver com aquela imagem do Buda que as pessoas colocam em cima de moedas com a barriga de frente para a porta.

Como se adivinhasse os pensamentos dela, Vivi falou rindo:

- Você deve estar se perguntando: “cadê aquele Buda gordinho”, né? Aquele é o Buda Amida, não tem nada a ver com o nosso budismo, que é o de Nitiren Daishonin. Mas depois, se você quiser, te explico tudinho, ok?

Marcela concordou com a cabeça. Lu e Carlinha se aproximaram delas, juntando as mãos como se faz na meditação, mas de olhos abertos, olhando para o pergaminho.

Marcela as imitou. Vivi apontou o centro do pergaminho, dizendo:

- Olha pra cá. Pra essa parte que parece um coração, tá vendo?

Marcela fez que sim. Vivi bateu o sino três vezes, juntou as mãos e as quatro disseram juntas – Marcela com uma certa dificuldade, mas conseguindo acompanhar até que bem:

- NAM MYOHO RENGE KYO. NAM MYOHO RENGE KYO. NAM MYOHO RENGE KYO.

Depois Vivi fechou o oratório, e quando elas se viraram, deram de cara com a mãe de Vivi, com um enorme sorriso:

- Que bom, meninas! Parabéns! Só de recitar uma única vez já se acumula a boa sorte de entrar na vibração do universo.

- Oi, tia!

Disseram Lu e Carlinha, de novo ao mesmo tempo.

- Lu! Carlinha! Queridas! Eu já estava ficando com saudade de vocês!

Beijou Lu e Carlinha, e depois parou na frente de Marcela, dizendo:

- Você eu ainda não conheço...

De uma forma simpaticíssima. Que fez Marcela dizer com um sorriso:

- Marcela. Muito prazer.

- Marcela, o prazer é todo meu! Eu sou a Lúcia, mãe da Vivi. Fique à vontade, viu?

Deu dois beijinhos em Marcela. E depois abraçou e beijou Vivi muitas vezes. Vivi retribui, sem oferecer nenhuma resistência. Parecendo estar gostando muito até.
Coisa que surpreendeu Marcela porque... Se a mãe fizesse isso com ela na frente das amigas, ia morrer.

***

O pai de Vivi estava trabalhando. A irmã fazia medicina no Fundão (UFRJ), passava o dia inteiro na faculdade. Por isso a mesa estava posta para cinco. E Marcela teve outra surpresa, quando viu um enorme pedaço de carne assada. Perguntou baixinho para Vivi, que estava sentado ao lado dela:

- Vocês comem carne?

- Claro! Você tá confundindo com o Zen Budismo. Não é o mesmo budismo, sabe?

A mãe de Vivi completou, com muito mais paciência:

- No nosso budismo qualquer pessoa pode atingir o estado de Buda – é um estado, não é uma pessoa – que existe dentro de todos nós. E pra isso não é preciso se afastar da sociedade nem qualquer tipo de prática austera. Pelo contrário.

Vivi completou, com os olhos cintilando significativamente quando encontraram os de Marcela:

- Como a flor de Lótus, que nasce da lama. Quanto mais lama em volta dela, mais bonita é a flor.

Marcela sorriu, os olhos negros parecendo cintilar de volta. Criando um brilho entre elas, perceptível para todas que estavam na mesa.

Lu abaixou os olhos, fingindo estar muito entretida com a comida. Carlinha sorriu, um pouco nervosa. A mãe de Vivi as observou atentamente, e depois disse, sem desmanchar o sorriso do rosto:

- A Vivi te explica tudo. Afinal de contas, você é “shakubuku” dela.

Marcela fez uma cara tão perplexa, que Vivi riu. Depois explicou:

- Literalmente, “shakubuku” quer dizer tirar o sofrimento e mostrar a felicidade. Mas o que minha mãe quer dizer é: eu apresentei você pro budismo, ou seja, você é minha “shakubuku”. Entendeu?

Marcela fez que sim com a cabeça. Tirar o sofrimento e mostrar a felicidade... É, realmente, sempre que estava com Vivi sentia uma alegria intensa... Do nada...

Carlinha encerrou o assunto com uma daquelas frases bombásticas dela:

- É igual em “O Pequeno Príncipe: tu és eternamente responsável por aquele que cativas”. No caso de vocês, por aquela que cativas, não é mesmo?

Carlinha riu sozinha. Lu manteve a cabeça enterrada no prato. A mãe de Vivi apenas olhou de Marcela para a filha com um leve sorriso surpreso nos lábios.

Marcela fitou Vivi, sem entender a sensação estranha que fez todo seu corpo pulsar mais rápido. De uma forma inexplicável, cativa era a palavra certa. Dos magníficos olhos verdes. Que tinham sobre ela um poder quase mágico.

Com uma expressão absolutamente perdida, tentou encontrar uma resposta nas faíscas verdes.

Inutilmente...

Porque Vivi desviou os olhos, evitando que Marcela lesse a verdade expressa neles... E deixando que a mãe visse e tivesse certeza que...

Se a frase de Carlinha estava certa, Marcela já era inteiramente responsável por Vivi.

***

Depois do almoço foram para o quarto de Vivi. Carlinha colocou uma música. “When the Stars go Blue”(The Corrs e Bono). Marcela quase riu. Não da escolha da música, mas por aquele quarto ser... O oposto do dela. Todo arrumadinho e... Rosa... Tão absurdamente rosa... Marcela nem sabia que existiam tantos tons de rosa diferentes.

Em cima da cama de solteiro uma colcha e almofadas - cor de rosa, é claro. Do lado da cama, uma mesinha com um computador cheio de adesivos brilhosos. Em cima do gabinete, miniaturas das meninas super poderosas.

Uma estante com muito menos livros do que bonecos de pelúcia – de todos os tamanhos, tipos e formas, até um urso polar tinha!

Normalmente, Marcela diria que o quarto era... Fresco. Mas como era o quarto de Vivi, achou fofo, uma gracinha mesmo.

Só então reparou nas fotos penduradas na parede. De Vivi dançando. Bem pequenininha, depois com um sorriso desdentado na frente, um pouco maiorzinha, e então, já adolescente. Mas nenhuma recente, de Vivi como Marcela conhecia. Não aguentou de curiosidade:

- Você dança?

- Dançava. Machuquei o joelho, dois anos atrás, e não pude mais...

Vivi disse com um sorrisinho triste. Que fez Marcela sentir um aperto no coração, entendendo perfeitamente como se sentiria se não pudesse mais cantar ou tocar.

- Sinto muito.

Marcela falou de um jeito tão sincero e profundo, que Vivi percebeu que ela havia compreendido o que parar de dançar significava para ela. E isso a surpreendeu completamente.

Foi Lu quem interrompeu:

- Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, meninas, mas... Vamos começar?

Sentaram no chão, mas ainda ficaram algum tempo fazendo comentários sobre os professores, as aulas, até o assunto ser as notas da prova de constitucional que a professora tinha entregado. Marcela apenas observava, sem dizer nada.

Vivi perguntou baixinho:

- Que foi? Tá tão calada...

Mas Lu ouviu, e aproveitou para soltar provocar:

- Ela não deve ter o que falar, né? Passa todas as aulas ouvindo música...

Ao que Marcela respondeu, com um tom de superioridade irritante:

- Até agora nenhuma aula me fez falta.

Lu riu, com uma ironia tão grande, que foi quase um tapa:

- Até parece! Quanto você tirou na prova, hein? Fala!

Marcela riu com desdém, e respondeu:

- Não te interessa.

Vivi tentou apaziguar os ânimos:

- Meninas, por favor... Menos...

Lu insistiu:

- Não, já que ela é tão fodona, quero saber a nota dela. A minha foi oito e meio.

Colocou a prova no meio da roda, em desafio, como se fosse um jogo. Pediu a prova de Carlinha e a de Vivi também:

- Vamos lá, coloquem as cartas na mesa.

Carlinha colocou, muito sem jeito. Elas viram um sofrível sete e meio. Vivi se recusou, irritada:

- Vamos parar com isso?

E então a própria Marcela disse:

- Não, mostra a sua prova, Vivi. Tá na boa.

Vivi então colocou a prova no chão. Um nove. A mais alta até então.

Marcela abriu um sorriso. Parecia estar jogando pôquer. Pegou a prova na mochila e jogou com desprezo por cima de todas as outras.

Deixando as três de queixo caído porque... Tinha tirado nove e meio. E ainda tirou onda dizendo:

- Sinto muito, meninas... Mas numa família como a minha, a gente aprende a diferença entre uma constituição outorgada e uma promulgada antes de cair o primeiro dente de leite...

***

Depois da revelação bombástica que foi a nota de Marcela, Lu ficou quieta. Terminaram o trabalho sem mais incidentes.

Vivi acompanhou as amigas, descendo no elevador com elas. Despediu-se de Lu e Carlinha na portaria e seguiu com Marcela até a garagem.

Quando Marcela colocou o capacete e subiu na moto, Vivi tomou coragem para tentar explicar o inexplicável:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela abriu o vidro do capacete e gritou:

- Que? Não escutei...

Vivi repetiu:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela deu um sorriso provocante, e olhou bem dentro dos olhos verdes:

- O beijo?

Deixando Vivi totalmente sem jeito:

- É... Eu queria... Quer dizer... Não queria... Ai...

E escondeu o rosto com as duas mãos, morta de vergonha e se achando uma idiota completa.

Marcela sorriu, achando graça. Muita graça mesmo. Até o pescoço de Vivi estava vermelho. Tirou e pendurou o capacete, desceu da moto, e se aproximou dela:

- Ei...

Pegou nos pulsos de Vivi com delicadeza, e afastou as mãos dela do rosto. De uma forma absolutamente suave, a fez levantar a cabeça e olhar para ela.

A escuridão dos olhos negros parecia estrelada... Por um brilho verde sedutor... Que Vivi não reconheceu como o reflexo fulgurante de seus próprios olhos.

Marcela aproximou a boca lentamente, e abriu os lábios sobre os de Vivi de uma forma absolutamente ardente e sensual... Com o coração a galope no peito...